
Uma reflexão sobre intolerância, democracia e a contradição entre professar a fé cristã e desejar o mal ao próximo.
Confesso que acompanho o cenário pós-eleitoral com profunda tristeza. Não apenas pelas disputas políticas, pelos vencedores e derrotados, mas pelo que estamos revelando como sociedade.
O que mais me entristece é ouvir relatos de pessoas que se dizem cristãs, especialmente protestantes e evangélicas, manifestando, nas redes sociais, em conversas pessoais e até nas rodas de igrejas, o desejo de comprar armas e atirar contra aqueles que não votaram no candidato que apoiavam.
Meu Deus, a que ponto chegamos? Como conseguimos acumular tanto ódio, rancor e ressentimento a ponto de desejar a morte de alguém simplesmente porque essa pessoa fez uma escolha política diferente da nossa? Como chegamos ao ponto de tratar a divergência democrática como justificativa para ameaças, perseguições e violência?
Uma eleição pode frustrar expectativas e contrariar convicções, mas nenhuma derrota política autoriza a barbárie. A democracia pressupõe diferenças, e respeitar o resultado das urnas não significa renunciar ao direito de fiscalizar, criticar e cobrar os eleitos.
Quem vence não se torna dono do país. Quem perde não deixa de ser cidadão. O adversário político não é um inimigo a ser eliminado, mas um semelhante que tem direitos, consciência e dignidade.
A situação se torna ainda mais preocupante diante de denúncias de assédio moral e eleitoral envolvendo empresários que pressionariam trabalhadores, ameaçando demissões ou defendendo seu desligamento por terem votado no candidato adversário.
Também causam indignação declarações atribuídas a políticos e agentes públicos que teriam anunciado a intenção de negar atendimento, interromper ações sociais ou deixar de distribuir cestas básicas por causa das escolhas eleitorais dos cidadãos. Somam-se a isso relatos de autoridades que teriam sugerido que trabalhadores insatisfeitos com a posição política de seus patrões deveriam pedir demissão.
Se confirmadas, essas atitudes representam graves distorções da democracia e do exercício da responsabilidade pública. O emprego não pode ser instrumento de chantagem política. A assistência social não pode ser prêmio para aliados, nem a cesta básica, moeda de fidelidade partidária. O serviço público pertence à população, e não ao governante de ocasião.
A fome não tem partido. A dignidade humana não tem ideologia. E os direitos de um cidadão não podem depender de seu voto. As denúncias devem ser apuradas com seriedade, e eventuais irregularidades, responsabilizadas conforme a lei. Não podemos, entretanto, aceitar que o poder econômico ou político seja usado para humilhar, perseguir ou privar pessoas de seus direitos.
E os cristãos, onde ficaram os ensinamentos de Jesus? É aqui que minha tristeza se transforma em preocupação espiritual. Como podemos professar a fé em Jesus Cristo e desejar a morte de alguém por causa de uma escolha eleitoral? Como podemos cantar louvores, participar de cultos e levantar as mãos em oração, mas, fora do templo, alimentar o ódio contra nossos semelhantes?
Jesus ensinou, em Mateus 5:44, a amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem. Em João 13:35, afirmou que seus discípulos seriam reconhecidos pelo amor. O cristão tem todo o direito de participar da política, defender suas convicções, criticar governos e denunciar injustiças. O que não pode é usar a fé para justificar atitudes que contradizem os ensinamentos de Cristo.
Quando a fidelidade a um político se torna maior do que o compromisso com a verdade, a justiça e a misericórdia, precisamos rever nossas prioridades. O púlpito não pode se transformar em palanque permanente, o altar não pode alimentar a idolatria política e a igreja não pode ser espaço de hostilidade contra quem pensa diferente.
Nenhum presidente, governador, prefeito ou líder partidário deve ocupar o lugar que pertence a Cristo na consciência do cristão. O Evangelho não nos chama a odiar em nome de Deus, mas a viver a verdade, praticar a justiça e amar o próximo.
A Bíblia nos orienta a orar pelas autoridades constituídas. Em 1 Timóteo 2:1-2, Paulo recomenda orações e intercessões por todos, inclusive pelos que exercem autoridade. Orar pelos governantes não significa concordar com todas as suas decisões, abandonar a crítica ou aceitar injustiças. Significa também pedir que tenham sabedoria, responsabilidade e compromisso com o bem comum.
Mas há uma diferença profunda entre orar para que uma autoridade governe com justiça e desejar sua morte porque discordamos de suas ideias. Como explicar que alguém se ajoelhe durante um culto ou uma missa para orar ou rezar e, ao sair do templo, manifeste o desejo de pegar em armas para atirar em outro ser humano?
Uma coisa é a oração pronunciada pelos lábios. Outra é o ódio cultivado no coração. Se oramos pela paz, precisamos rejeitar a violência. Se pedimos misericórdia, precisamos praticá-la. Se clamamos a Deus pelo Brasil, devemos assumir nossa responsabilidade na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Que testemunho estamos oferecendo quando a fé professada dentro do templo é contradita pelas atitudes na rua? E se toda essa força fosse usada para cobrar os governantes?
Observo a disposição de tantas pessoas para defender seus candidatos com fervor. São horas de discussões, publicações e enfrentamentos. Em alguns casos, amizades são rompidas, famílias entram em conflito e até ambientes religiosos se transformam em espaços de disputa política.
Mas e se toda essa energia fosse empregada também para cobrar dos governantes, do Congresso Nacional e das demais instituições o cumprimento de suas responsabilidades? E se houvesse o mesmo empenho para fiscalizar os gastos públicos, exigir melhorias na saúde e na educação, combater a corrupção, ampliar oportunidades de trabalho e defender os mais vulneráveis? Talvez avançássemos muito mais.
O papel do cidadão não termina na urna. Ele continua na fiscalização dos eleitos, na cobrança de promessas e na defesa do interesse público, independentemente de partidos ou ideologias. Não precisamos de defensores incondicionais de políticos, mas de cidadãos conscientes, capazes de reconhecer acertos, denunciar erros e exigir responsabilidade.
E se os cristãos tivessem o mesmo vigor para orar e interceder pelo Brasil? Faço a mesma reflexão às igrejas protestantes e evangélicas, assim como aos cristãos de todas as tradições religiosas.
E se toda a energia empregada nas disputas políticas fosse direcionada também à oração, à intercessão e à prática do Evangelho? E se nossas igrejas se mobilizassem para clamar pela nação, pela sabedoria dos governantes, pela integridade das instituições e pela paz entre os brasileiros?
Não defendo uma igreja alienada da política. A comunidade cristã tem o direito e a responsabilidade de participar da vida pública, denunciar abusos e defender a justiça. Entretanto, sua missão não pode ser reduzida à vitória de um candidato ou à derrota de outro.
Tiago 2:17 nos lembra que a fé sem obras é morta. Por isso, não basta orar pela nação durante o culto e alimentar o ódio nas redes sociais. Não basta pedir a bênção de Deus sobre o país e apoiar práticas que humilham trabalhadores ou discriminam cidadãos.
A igreja precisa acolher os necessitados, proteger os vulneráveis, formar consciências e testemunhar o amor de Cristo. Uma fé que não se traduz em verdade, justiça, misericórdia e respeito ao próximo precisa ser examinada à luz do Evangelho.
Ainda temos jeito? Essa é a pergunta que permanece. Ainda temos jeito ou a intolerância política continuará crescendo? Não é possível prever com segurança o futuro, mas há motivos para preocupação quando ameaças são banalizadas, mentiras são compartilhadas sem verificação e injustiças são justificadas apenas porque atingem quem pensa diferente.
O ódio se fortalece quando aplaudimos ameaças contra adversários, quando aceitamos a perseguição de trabalhadores por suas escolhas eleitorais e quando ignoramos a violação de direitos porque os prejudicados pertencem a outro grupo político.
Mas esse caminho não é inevitável. Podemos recuperar o diálogo, reconstruir relações e exigir responsabilidade de cidadãos, empresários, governantes e lideranças religiosas. A liberdade de expressão não legitima ameaças. O poder econômico não autoriza o assédio eleitoral. E uma função pública não concede o direito de discriminar cidadãos. Precisamos reaprender a discordar sem odiar, fiscalizar sem perseguir e defender nossas convicções sem perder a humanidade.
Até onde vamos, Brasil? Meu Deus, a que ponto chegamos. O problema não está simplesmente em pensarmos de maneira diferente, mas em permitirmos que nossas diferenças destruam a capacidade de reconhecer a dignidade do outro.
O brasileiro que votou no candidato adversário continua sendo nosso semelhante. Não perde seus direitos, sua humanidade ou seu valor por causa de uma escolha eleitoral. Precisamos rejeitar a violência, denunciar o assédio, cobrar responsabilidade dos governantes e olhar para dentro de nós mesmos.
Antes de compartilhar uma ofensa, precisamos pensar no que estamos alimentando. Antes de defender incondicionalmente um político, devemos lembrar que nenhum líder está acima da verdade e da justiça. E, antes de desejar o mal a alguém, precisamos recordar que a vida humana não perde seu valor por causa de um voto.
Aos cristãos, fica um chamado especial. Que nossas orações não sejam contraditas por nossas atitudes. Que nossos cultos produzam frutos fora dos templos, e que nossa fé nos conduza à verdade, à misericórdia e à defesa dos que sofrem. O Brasil precisa de menos ódio e mais responsabilidade, menos idolatria política e mais consciência cidadã, menos ameaças e mais diálogo.
Que os vencedores compreendam que governar é servir a todos. Que os derrotados continuem exercendo seu direito de crítica dentro das regras democráticas. Que os empresários respeitem a liberdade de consciência de seus trabalhadores. E que as igrejas não percam de vista sua missão espiritual e social.
Que voltemos a orar pelas autoridades, inclusive por aquelas com as quais discordamos, pedindo sabedoria para governar, justiça para os injustiçados e paz para uma nação tão dividida.
Porque não faz sentido orar pela paz e alimentar a guerra. Não faz sentido pregar o amor e desejar a morte. Não faz sentido falar de Jesus no altar e negar seus ensinamentos na rua. Ainda temos jeito? Quero acreditar que sim. Mas essa esperança precisa se transformar em atitudes.
Que nossas convicções políticas jamais sejam maiores do que nosso compromisso com a vida, a verdade e a dignidade humana. E que, diante de Deus e da história, sejamos lembrados não pelo ódio que alimentamos, mas pela humanidade que preservamos, mesmo em nossas diferenças.
Pr. Gilberto Silva – Gurupi – TO
FocoTocantinense Noticias do Estado do Tocantins