Por Rodrigo Martins
A construção de políticas públicas de cultura com a participação da população negra esteve no centro dos debates desta sexta-feira (3), durante o Encontro Regional Centro-Norte do Programa Nacional dos Comitês de Cultura, em Palmas. O tema foi discutido no Diálogo em Roda – Julho das Pretas: Cultura, Memória e Participação Social, que reuniu Ana Mumbuca, do Quilombo Mumbuca, em Mateiros (TO), e Érica Lopes, da Comunidade Quilombola Barra da Aroeira, em Santa Tereza do Tocantins (TO). A mediação foi de Aline Vieira, do Comitê de Cultura do Pará.

Ancestralidade e representatividade
Ao refletir sobre sua trajetória, Ana Mumbuca destacou que o reconhecimento dentro das comunidades negras é construído pelo trabalho coletivo e pela confiança das pessoas, e não por uma autodeclaração.
“Eu gosto muito de lembrar da palavra ancestralidade. Liderança é muito sério e precisa ser reconhecida e não ‘autodizível’ [sic.]. Eu não sou liderança porque fui eleita. Estou aqui pelo trabalho que desenvolvo e pelo que posso compartilhar com vocês”, afirmou.
A palestrante também ressaltou que prefere ser reconhecida pelas contribuições que construiu ao longo da vida. “Eu sou apenas Ana. Faço poesia, escrevo algumas coisas, sou pesquisadora e artesã do capim-dourado. Essas são coisas palpáveis”, disse.
Comumunicação que nasce do povo
Participante da roda de diálogo, João Meireles, do Comitê de Cultura do Pará, leva um grande aprendizado da atividade. Ele entende que as políticas públicas precisam partir das realidades vividas pela população negra e pelos territórios. “Saio daqui pensando que vale a pena continuar. Precisamos construir uma política feita por nós, a partir do nosso território, do nosso povo e da nossa comunicação”, afirmou.
João destaca ainda que existe a ideia de que as comunidades negras não sabem comunicar suas próprias demandas. “Quando o povo preto se comunica, independentemente de dinheiro ou religião, ele gera movimento. É um movimento que nasce de dentro, de forma orgânica e muito mais afetuosa”, destacou.
Cultura, memória e participação social
As discussões reforçaram que fortalecer as políticas públicas de cultura também significa ampliar os espaços de participação da população negra, reconhecer seus saberes e garantir que suas experiências contribuam para a formulação das ações governamentais.
Para a coordenadora de Comunicação e Eventos do Comitê de Cultura no Tocantins, Bell Gama, a presença de lideranças quilombolas tocantinenses fortaleceu o diálogo proposto pelo encontro e aproximou o público das realidades vividas nos territórios.
“É muito animador contar com palestrantes tão potentes no Encontro e, sendo mulheres quilombolas tocantinenses, do nosso território, temos o sentimento de que o público saiu impactado e provocado deste encontro”, destacou.
O debate integrou a programação do Julho das Pretas durante o Encontro Regional Centro-Norte do Programa Nacional dos Comitês de Cultura, reafirmando o compromisso com a valorização da diversidade, da memória e da participação social na construção das políticas públicas de cultura.

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