{"id":11942,"date":"2026-03-07T16:59:34","date_gmt":"2026-03-07T19:59:34","guid":{"rendered":"https:\/\/focotocantinense.com.br\/?p=11942"},"modified":"2026-03-07T16:59:34","modified_gmt":"2026-03-07T19:59:34","slug":"opiniao-um-episodio-muitos-cancelamentos-e-poucas-reflexoes-sobre-a-inclusao-nas-escolas-de-gurupi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focotocantinense.com.br\/?p=11942","title":{"rendered":"OPINI\u00c3O &#8211; Um epis\u00f3dio, muitos cancelamentos e poucas reflex\u00f5es, sobre a inclus\u00e3o nas escolas de Gurupi"},"content":{"rendered":"\n<p>Por&nbsp;<strong>Gilberto Correia da Silva&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"675\" height=\"450\" src=\"https:\/\/focotocantinense.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/qqqqq.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11944\" style=\"width:371px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/focotocantinense.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/qqqqq.jpeg 675w, https:\/\/focotocantinense.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/qqqqq-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00eamica gerada pela fala da diretora da Escola Municipal de Tempo Integral Odair L\u00facio, em Gurupi, ao se referir ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) como \u201ctranstorno da moda\u201d, provocou uma rea\u00e7\u00e3o imediata e intensa nas redes sociais, nas tribunas pol\u00edticas e nos grupos de debate da cidade. A diretora foi duramente criticada, atacada e praticamente \u201ccancelada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio dizer, sem rodeios, que a fala foi infeliz e inadequada. Uma educadora, ainda mais ocupando cargo de dire\u00e7\u00e3o, precisa ter sensibilidade e responsabilidade ao tratar de um tema t\u00e3o delicado e que envolve fam\u00edlias, crian\u00e7as e profissionais da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 um problema ainda maior. A sociedade gurupiense parece ter descoberto agora que existem centenas de crian\u00e7as com Transtorno do Espectro Autista na rede municipal de ensino.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso exp\u00f4s algo que h\u00e1 muito tempo precisa ser discutido com seriedade. A inclus\u00e3o escolar n\u00e3o se resolve com discursos, notas oficiais ou n\u00fameros apresentados em relat\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A gest\u00e3o municipal afirma que a rede conta com 24 salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE), professores especialistas, profissionais de apoio e uma equipe multidisciplinar formada por coordena\u00e7\u00e3o, supervis\u00e3o, assistentes sociais e psic\u00f3logas, acompanhando cerca de 400 estudantes com diagn\u00f3stico de TEA.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrutura \u00e9 importante e merece reconhecimento. Por\u00e9m, uma pergunta precisa ser feita com honestidade. Essa estrutura consegue realmente atender todas as escolas e todos os alunos que necessitam desse acompanhamento?<\/p>\n\n\n\n<p>A matem\u00e1tica da realidade escolar mostra que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais complexa do que parece. Importante ressaltar que esse n\u00e3o \u00e9 problema exclusivo de Gurupi, mas, via de regra, em todo o Brasil, possivelmente com raras exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Gurupi, segundo a nota da prefeitura, s\u00e3o cerca de 400 alunos diagnosticados espalhados por diferentes escolas da rede municipal. Ainda que existam 24 profissionais especialistas ou salas de AEE, \u00e9 evidente que essa equipe n\u00e3o consegue atuar em todas as unidades ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, o que muitas vezes acontece \u00e9 que um aluno com necessidade espec\u00edfica acaba esperando atendimento especializado ou, em alguns casos, o problema precisa ser enfrentado por algum professor \u201cdesignado\u201d para a fun\u00e7\u00e3o, que nem sempre possui a forma\u00e7\u00e3o adequada para lidar com determinadas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto pouco discutido \u00e9 que nem todos os casos de TEA s\u00e3o iguais. O espectro autista possui diferentes n\u00edveis e caracter\u00edsticas. Cada crian\u00e7a apresenta necessidades pr\u00f3prias, exigindo acompanhamento individualizado, paci\u00eancia, conhecimento t\u00e9cnico e suporte cont\u00ednuo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando existe um n\u00famero maior de alunos em determinada escola, a atua\u00e7\u00e3o da equipe especializada costuma ser, ou deveria ser, mais frequente. Mas quando h\u00e1 apenas um ou dois alunos com essa condi\u00e7\u00e3o em determinada unidade, o atendimento muitas vezes se torna mais espa\u00e7ado, e o professor da sala regular precisa lidar praticamente sozinho com o desafio.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica isolada a profissionais da rede. Pelo contr\u00e1rio. Muitos professores enfrentam essa realidade diariamente, com dedica\u00e7\u00e3o, boa vontade e esfor\u00e7o pessoal, muitas vezes sem o suporte necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto que tamb\u00e9m precisa ser tratado com equil\u00edbrio \u00e9 o papel da fam\u00edlia. Sem generalizar, \u00e9 verdade que existem fam\u00edlias profundamente comprometidas com o acompanhamento de seus filhos. Mas tamb\u00e9m existem situa\u00e7\u00f5es em que a escola acaba recebendo toda a responsabilidade pela educa\u00e7\u00e3o, cuidado e disciplina da crian\u00e7a, como se fosse poss\u00edvel transferir integralmente para a institui\u00e7\u00e3o aquilo que tamb\u00e9m precisa ser trabalhado dentro de casa.<\/p>\n\n\n\n<p>A escola tem responsabilidade educacional e inclusiva, mas a fam\u00edlia continua sendo o primeiro espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. Portanto, reduzir todo esse debate a um epis\u00f3dio isolado ou a uma \u00fanica fala equivocada \u00e9 simplificar demais um problema complexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o a postura de alguns setores pol\u00edticos que rapidamente ocuparam tribunas e redes sociais para condenar a diretora, muitas vezes sem sequer conhecer de perto a realidade das escolas. Em tempos de redes sociais e proximidade eleitoral, infelizmente n\u00e3o s\u00e3o poucos os que transformam qualquer crise em palco de visibilidade e engajamento digital.<\/p>\n\n\n\n<p>Criticar \u00e9 f\u00e1cil. Dif\u00edcil \u00e9 visitar escolas, conversar com professores, acompanhar o cotidiano de uma sala de aula inclusiva ou passar algumas horas observando o desafio real de atender alunos com diferentes necessidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, uma capacita\u00e7\u00e3o anual isolada n\u00e3o transforma automaticamente um professor em especialista em educa\u00e7\u00e3o inclusiva. Inclus\u00e3o exige forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, acompanhamento pedag\u00f3gico, apoio psicol\u00f3gico, presen\u00e7a constante de profissionais especializados e pol\u00edticas p\u00fablicas que funcionem de fato no cotidiano escolar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dar vaga em sala de aula n\u00e3o resolve o problema por si s\u00f3. Inclus\u00e3o verdadeira n\u00e3o \u00e9 apenas matricular o aluno. \u00c9 garantir que ele tenha condi\u00e7\u00f5es reais de aprender, se desenvolver e conviver.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, este epis\u00f3dio precisa servir como ponto de partida para uma discuss\u00e3o s\u00e9ria e respons\u00e1vel. A diretora poderia, sim, ter demonstrado mais sensibilidade ao tratar do tema. Mas a crise revelou algo maior, que o desafio da inclus\u00e3o escolar em Gurupi \u00e9 mais profundo do que muitos imaginavam.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata apenas de defender ou condenar algu\u00e9m. Trata-se de encarar a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A inclus\u00e3o verdadeira exige compromisso de todos, sejam gestores p\u00fablicos, professores, especialistas, fam\u00edlias e sociedade. Porque, no final das contas, estamos falando de crian\u00e7as que n\u00e3o precisam de pol\u00eamica. Precisam de estrutura, preparo, respeito e cuidado real. E as professores e professores, tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>* Gilberto Correia da Silva \u2013 Professor Aposentado, jornalista, escritor, pastor, capel\u00e3o e presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Professores Universit\u00e1rios da Apug.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"340\" src=\"https:\/\/focotocantinense.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/OK-VINICIUS-MARTINS-1-1024x340.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11943\" srcset=\"https:\/\/focotocantinense.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/OK-VINICIUS-MARTINS-1-1024x340.jpeg 1024w, https:\/\/focotocantinense.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/OK-VINICIUS-MARTINS-1-300x100.jpeg 300w, https:\/\/focotocantinense.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/OK-VINICIUS-MARTINS-1-768x255.jpeg 768w, https:\/\/focotocantinense.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/OK-VINICIUS-MARTINS-1.jpeg 1125w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Gilberto Correia da Silva&nbsp; A pol\u00eamica gerada pela fala da diretora da Escola Municipal de Tempo Integral Odair L\u00facio, em Gurupi, ao se referir ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) como \u201ctranstorno da moda\u201d, provocou uma rea\u00e7\u00e3o imediata e intensa nas redes sociais, nas tribunas pol\u00edticas e nos grupos de debate da cidade. 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